Andando por uma livraria, dia desses, deparei-me com o livro acima: Caçadas de Pedrinho, um clássico de Monteiro Lobato. Recentemente, este livro foi considerado racista pelo Conselho Nacional de Educação, num parecer bastante polêmico.
Em síntese, o CNE censurou o livro, publicado em 1933, que narra as aventuras da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo em busca de uma onça pintada, por entender que traços racistas estariam na obra, principalmente quando em referência à Tia Nastácia, personagem negra, e também sobre alguns animais, como urubu e macaco.
Esta é mais uma daquelas questões que envolvem o 'politicamente correto'.
Confesso: detesto os politicamente corretos, aqueles que deixam de expressar o que verdadeiramente pensam em nome de um conceito global preestabelecido. Aqueles que amenizam palavras visando unicamente esconder e maquiar preconceitos que estão aflorados neles mesmos...
Obviamente que o livro de Monteiro Lobato, ao ser lido, deve ser contextualizado, pois escrito numa época em que a linguagem era diferente, mais carregada. Nunca, jamais ser censurado por isto.
É a mesma história da música: Atirei o pau no gato-to, mais o gato-to não morreu-reu-reu... já ouvi um CD uma vez que trazia a canção reformulada para: Não atire o pau no gato-to-to/ Porque isso não se faz, faz, faz/ O gatinho-nho-nho é nosso amigo-go-go/ Não devemos maltratar os animais.
Fala sério: eu nunca matei um gato porque cantava a música tradicional. Acredito que a onda do politicamente correto distorce, e acaba até fortalecendo preconceitos.
Sinceramente, entendo que os pais não podem terceirizar a transmissão de valores morais para os livros ou para a música infantil. Esta é uma função que deve ser feita pela família, e qualquer tentativa de ensinar a ser forçadamente bonzinho por mensagens já prontas em livros não terá efeito. Isso porque a percepção do bom e do mau deve vir pela reflexão e pelo exercício constante entre o certo e o errado. A leitura deve provocar a criança com situações de conflito para que ela raciocine sobre o assunto e tire suas conclusões.
Lembro muito bem de minha filha perguntar, ao ler o título 'O Negrinho do Pastoreio'... isso não é feio mãe, chamar o menino de negrinho só porque ele tem pele marrom? Será que se o título do livro estivesse "O Afrodescendentezinho do Pastoreio', teria levado a minha pequena a refletir da mesma maneira e questionar desta forma? Creio que não.
A imposição do politicamente correto leva a cuidados excessivos, que muitas vezes pode ter o efeito contrário... Mas, ainda bem, o tal parecer do CNE foi rejeitado pelo Ministro da Educação, Fernando Haddad, muito também pelo pronunciamento claro e tempestivo, da Academia Brasileira de Letras, em sentido contrário à censura.
Muito bem. Castro Alves, pode descansar em paz... Seu 'Navio Negreiro', por ora, está livre de ameaças!

