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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Tempo, esse implacável


Um pouco do meu fim de semana foi dedicado a reflexões. Assisti a um filme que me deixou assim, pensativa, até por demais. Um filme já antigo para os padrões atuais, quando tudo que foi lançado ontem já é tido como passado. Chama-se: O Curioso caso de Benjamin Button. O personagem principal, ao invés de nascer e envelhecer como todo mundo, começa sua vida velho e morre bebê, numa inversão de lógica sensível, que aborda o tema - o tempo - de forma absolutamente poética e convincente.

Quem não assistiu, recomendo muitíssimo.

Na verdade, o filme traz, além de tantos outros aspectos, um que me foi mais impressionante: questiona a forma como levamos nossas vidas. De uma forma geral, todos assumem seus compromissas e se vêem em rodas vivas do tipo: casa-trabalho-casa, passando por outras semelhantes ao: ganha dinheiro - paga conta - faz dívidas - ganha dinheiro, ainda complementada pelos vários papéis que exercemos ao redor de: filho - marido - família - irmã - amiga...

Em síntese, pouco enxergamos, efetivamente, a forma como a vida se desenrola. Debaixo dos nossos olhos a rotina consome grande parte do nosso tempo e pouco sobra para o inesquecível, o marcante, o incrível.

Há visões distorcidas sobre o tempo: vejo alguns reclamando das rugas, correndo atrás de aplicações de bottox para aliviar as expressões daquilo que se viveu e que nada apaga. Rejeitar o tempo é, no fundo, perceber que tudo o que foi vivido não foi pleno. É querer outra história para si, ou por não ter aproveitado o tempo que lhe foi dado, ou por ter aproveitado demais, de forma deturpada.

Somos, na verdade, uma sucessão de experiências. Ao nascer velho e morrer bebê, Benjamin Button ensinou que a vida tem sentido quando abraçamos as oportunidades e nos permitimos viver intensamente todas as experiências que se dispõem à nossa frente.

Fazer de hoje um dia que possa ter algo de inesquecível e surpreendente parece uma divertida missão. Sem pressa, sem cobranças, apenas vivendo o tempo que nos é disponibilizado com qualidade superior.

Ninguém consegue parar o tempo. Mesmo depois da morte, ele continua sendo contado, talvez não por relógios, mas por meio de outras experiências, que continuarão chegando e se apresentando a todos. Uma jornada tão incomum quanto a de Benjamin ensina algo que é compartilhado por todos: o tempo não retrocede. Ao contrário, deixa marcas. Ainda que invisíveis, sufoca e impede novos recomeços. Aceitar sua trajetória com serenidade é o melhor dos recomeços.

Meu dia hoje, foi incrível...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Cerejas lindas e legais


Eu odeio cerejas. Sempre odiei. Está na minha lista dos top 10 dos alimentos mais rejeitados por mim, junto com dobradinha, pé de galinha, uva passa, joelho de porco e outras impropriedades alimentares.

Bastava um belo sorvete estar acompanhado daquela monstruosa bola vermelha encaldada que rejeitava sem perdão a deliciosa sobremesa.

Mas daí então, que, em uma tarde de quarta-feira, assim, despretensiosamente, aparece uma querida amiga, em frente à minha mesa de trabalho, com uma embalagem repleta de cerejas 'in natura'. Já sabedora de meu horror a cerejas em caldas, oferece sem chances de uma negativa minha, tal como hábeis aquarianas costumam ser.

- Vai, experimenta uma!!!!!

E lá fui eu, como uma adoradora de belos desafios, crente que não ia gostar mesmo, -afinal, duvidava que uma cereja em calda tivesse um gosto diferente da cereja 'in natura' - encarei a bicha. Minha irritante teimosia levou um belo golpe.

O sabor da cereja natural nada se compara com a sua tenebrosa prima irmã em calda. Está mais próximo a uma ameixa, doce e carnuda, assim como as frutas saborosas sabem ser.

Creio que a culpa é da calda mesmo.

Cerejas saem da minha lista de piores alimentos do meu mundo. As naturais, por óbvio. Continuarei rejeitando os sorvetes ornados com bolas vermelhas ao topo, e saio desta experiência na certeza de que muito do que nos parece ser absoluto, pode estar apenas mascarado por uma calda ordinária que lhe retira o sabor original.

Cerejas são mesmo lindas e legais!!!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Burro no poço


Este foi um texto pronto que li certo dia destes. A história era até minha conhecida, mas sempre é bom relembrar para boas reflexões.

Um dia, um burro caiu num poço e não podia sair dali. O animal chorou fortemente durante horas, enquanto o seu dono pensava no que fazer. Finalmente, o camponês tomou uma decisão cruel: concluiu que já que o burro estava muito velho e que o poço estava mesmo seco, precisaria de ser tapado de alguma forma. Portanto, não valia a pena esforçar-
se para tirar o burro de dentro do poço. Chamou então os seus vizinhos para o ajudar a enterrar vivo o burro. Cada um deles pegou uma pá e começou a atirar terra para dentro do poço. O burro entendeu o que estavam a fazer e chorou desesperadamente. Até que, passado um momento, o burro pareceu ficar mais calmo. O camponês olhou para o fundo do poço e ficou surpreendido. A cada pá de terra que caía sobre ele o burro sacudia-a, dando um passo sobre esta mesma terra que caía ao chão. Assim, em pouco tempo, todos viram como o burro conseguiu chegar até ao topo do poço, passar por cima da borda e sair dali. A vida vai atirar muita terra para cima de ti. Principalmente se já estiveres dentro de um poço. Cada um dos nossos problemas pode ser um degrau que nos conduz para cima. Podemos sair dos buracos mais profundos se não nos dermos por vencidos. Usa a terra que te atiram para seguir em frente!

Que assim seja!

sábado, 21 de julho de 2012

Meninas ou Mulheres?



Navegando sem rumo na internet, deparei-me com uma matéria interessante: comportamento de meninas entre 6 a 9 anos. Certa vez, na televisão, já havia assistido a um programa em que demonstrava a preocupação com o corpo e com a imagem de meninas na mesma faixa etária. Era assustador.

Em praticamente todas, a imagem real que faziam de si mesmas era deturpada. Achavam-se mais gordas do que realmente eram. Queriam ser mais magras do que uma aparência saudável determinava. Isso em meninas que recém haviam completado seis anos de idade.

A pesquisa referente à figura que ilustra este post tinha um foco diferente. Psicólogos mostraram a imagem e fizeram quatro perguntas para as garotas: Qual delas se parece com você? Com qual delas você quer se parecer no futuro? Qual é a mais popular? Com qual delas você gostaria de brincar?

Também de forma assustadora, mais de 68% das meninas responderam a todas as perguntas escolhendo a figura da esquerda.

Não é difícil perceber, entre meninas dessa idade, comportamentos estranhos para a faixa etária em que se encontram. Interesses em saias curtas e disputa pelo menino mais popular da escola parecem ser mais comuns do que se imagina. São poucas as que ainda se interessam por brincadeiras tipicamente infantis e que pouco ligam para as tendências de moda.

E as lojas acompanham este perfil dominante. É extremamente difícil encontrar roupas adequadas a esta faixa etária de meninas. Eu que o diga. Corpetes tomara que caia, saias com fendas, rendas e transparências, sapatos com salto e até meia arrastão são itens rapidamente encontrados. Maquiagem, estampa de oncinha, cabelos com penteado elaborado, unhas feitas, embora ainda me assustem, não são mais raros em crianças que ainda estão longe da puberdade. E ainda há mães e pais que aplaudem e incentivam a transformação de suas meninas em mulheres... aterrorizante, pra não dizer bizarro.

Novos tempos? Outros tempos? Que tempo é esse?

O que há de errado em esperar uma idade mais adequada para explorar esse universo? Onde estão as meninas que são simplesmente meninas e não miniaturas de gente grande?

Não tenho dúvida alguma que um comportamento que determina vivenciar experiências precoces é extremamente prejudicial. Cria universos adulterados, oferece mensagens envenenadas, propiciando baixa auto estima, na medida em que incute na criança a sua aceitação social apenas tendo em vista sua imagem 'bacana', 'sexy' e 'descolada', exatamente numa fase em que se estabelece a identidade social para a vida toda.

Se este é o novo mundo, estou conscientemente bem longe dele...

terça-feira, 10 de julho de 2012

Raízes e folhas


Árvores representam mais do que a natureza. São seres praticamente mitológicos, guardiães de tudo o que as cercam. Metaforicamente, podem ser comparadas à força, consolidação, domínio, sabedoria, algo perene e já pacificado.

Suas raízes indicam a base, a estrutura de qualquer coisa sólida, persistente, definitiva...

E como nada é tão imutável assim, suas folhas são cíclicas, ora verdes, jovens e úteis, ora amareladas pelo outono, caídas ao chão, mortas e secas. Até que tudo se renova por mais uma vez.

Raízes e folhas são opostos de facetas que se completam. Revelam contrastes óbvios, de seres mais do que vivos, pulsantes.

É desfrutar a vida sem perder o chão. É ser leve com responsabilidade. É ousar com segurança. É permitir-se mudar as ideias, sem perder os princípios.

Caminhadas em bosques são mais reflexivas do que se pode imaginar...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Meus sentidos





Meus sentidos estão sempre sendo colocados à prova de alguma coisa. Gosto desta sensação. Estar atenta aos acontecimentos, aos detalhes, aguça a percepção e me faz sentir viva.

Treino minha audição para ser seletiva. Muito se escuta, pouco se aproveita. Estar pronta quando algo a escutar é importante é meu lema. O resto vira simplesmente, o resto. E detesto quando acabo errando o alvo. A mira certa depende de muito treino e dedicação.   

Meu olfato é mais ligado a memórias. O cheiro da infância, do colo da mãe, do perfume que mais gosto, da receita nova, o lençol amaciado, o cangote da minha filha. É preciso estar pronta a viver bons momentos, e recordar. 

Texturas, sabores... tato e paladar dedicados e atentos. 

Para a visão, algo especial. Tento forçá-la a captar imagens sem ser percebida. Aparentemente distraída, aos olhos dos outros, é quando os acontecimentos se revelam mais explicitamente. É o mais grandioso dos sentidos e de onde se extrai maiores responsabilidades. Eu 'ouvi dizer' é fraco... eu 'vi' é poderoso...um verdadeiro divisor de águas. Melhor ver sem ser vista. 

Sentidos são nossas ferramentas de exploração da vida. Com eles sentimos as emoções, vivenciamos experiências, desafiamos a inteligência e a força da natureza. Com eles, nos tornamos únicos, captamos da vida o que de melhor e de pior ela pode oferecer e só com eles saímos das derrotas que eles próprios nos colocaram...e comemoramos as vitórias por eles também coroadas. 

Os sentidos são resultado de escolhas. Nossas escolhas. Consequências mil que plainam em torno do que se constrói. A eterna dinâmica da ação e reação da vida. 

O doce acalma o amargo que está por vir. Lixam-se as asperezas com pulso firme. Respiro fundo e vejo que, na verdade, dentro do meu silêncio moram todos os sons.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rotina, sua linda!


Sempre fui muito apegada à rotina. Ter uma, no meu singelo conceito, transmite segurança, controle, precisão. Talvez falso, mas o suficiente para dar uma sensação prazerosa de domínio do seu dia a dia.

Por essas circunstâncias da vida, a rotina alterou-se um pouco por aqui. Virou de pernas para o ar o que, há tanto tempo, parecia já fixo e enraizado. O horário de todos já não é mais o mesmo, as saídas e chegadas, idem e percebo o quanto isso me desestabiliza.

É ruim.

É bom.

Ruim porque quebra o que antes já estava certo. Incomoda porque é preciso reprogramar uma série de fatos que já estavam no automático. Muito se perde, pouco se conquista a curto prazo.

Bom porque sacode a estabilidade. Desencapa a zona de conforto e aparece uma nova fonte de prioridades, um novo reprogramar. Permite novas experiências, desafios.

Mudanças sempre são problemáticas. Ninguém gosta, ou pelo menos, muito pouca gente procura mudanças o tempo todo. Mas, por vezes, elas são inevitáveis. Chegam sem pedir licença, escancaram a porta das nossa casa e se instalam no sofá, sem cerimônia.

Nessas horas, é bom saber que uma nova rotina logo logo chegará, e colocará tudo nos eixos novamente. E a vida seguirá seu curso. E quando nos acostumamos, assim, só pra variar, outras instabilidades podem provocar rachaduras.

Enquanto a viga estiver firme, tudo certo...

sábado, 2 de junho de 2012

Fofolândia


Hoje o post é dedicado a um mal que assola a sociedade brasileira: o politicamente correto.

Ser mais chato, padronizado, inoperante e dispensável não há.

Estamos cercados de politicamente corretos. Literalmente, a fofolândia se instaurou em todos os lugares. Não há mais discussões de ideias, mesmo em tese, porque todo mundo tem receio de expor sua opinião, temendo ser detectado por um politicamente correto, a que tudo pode ofender, ter uma mensagem subliminar não adequada, estar na contra mão do que o senso comum da fofolândia já estabeleceu como correto.

Pois bem. E assim estamos vivendo. Uma nova forma de censura. A censura do politicamente correto que impede, cala, e tolhe o efetivo exercício de liberdade de expressão.

Mais fácil agradar a todos, sem dúvida. Mais fácil também achar que o petróleo é vilão, política de cotas é a solução, usar animais em pesquisas científicas é tortura. Qualquer coisa que foge ao senso comum passa a ser preconceituoso e mal visto. Estamos caminhando para uma sociedade de cresce treinada a pensar de um jeito globalizado, sob pena de banimento. O exercício do contraditório está morrendo, aos poucos, mas numa continuidade assustadora.

Hoje, chamamos de bullying o que todos nós já enfrentamos na escola um dia. Evidente que há a agressão, o exagero, o perverso, e isso sim deve ser mediado. Mas, por certo, todo e qualquer percalço que uma criança passa na escola não pode ser assim interpretado. Se a nota da criança foi 8,0 na prova, lá vai uma comissão de pais, avós, periquitos e papagaios enfrentar a professora, direção e o papa para mostrar a indignação justificada porque alguém 'não ensinou direito'. Se seu filho está sendo excluído da panelinha recém formada por algum motivo, lá segue a mesma comissão para tirar satisfação. E isso, ainda, é interpretado por todos como 'atitude de verdadeiros pais e mães'.

Preservar o meio ambiente é levantar a bandeira contra as sacolas plásticas, mas ninguém se preocupa em saber qual a destinação do lixo que a sua casa gera todos os dias.

Ninguém mais é apenas 'masculino' ou feminino'. Virou ofensa perguntar, numa ficha cadastral, qual seu sexo. A pergunta deve ser substituída por 'orientação sexual'.

Raças não existem. Negro não é negro, amarelo não é amarelo, branco e vermelho, idem. 

As cidades têm que ser rasgadas por ciclovias, mesmo que ninguém as use. 

O saci é um afro descendente com necessidades especiais. Ladroagem é improbidade. Gordo é IMC em faixa de risco.

Hoje, tudo se conversa, mas nada se discute. É perigoso. Dá ação de dano moral. Vira ameaça. Exclui. Ninguém quer receber um carimbo na testa e ser taxado negativamente, aos olhos do senso comum. Consequência direta: os diálogos, hoje, são mornos. Ninguém emite opinião. Tudo se resume a discutir se o tempo está chuvoso, frio ou quente, mostrar o carro que comprou ontem, fazer cara de paisagem, postar no facebook as melhores fotos, estar sempre sorridente, colocar sobre a mesa o celular de última geração, junto com o Ipad...e aí daquele que não tiver a maçã mordida!

Sem perceber, criamos a realidade de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo Novo. Ele apenas escreveu um livro que previa, num futuro hipotético, onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais. Nós, concretizamos e entendemos perfeita essa lógica através do que é politicamente correto.

Por certo, o preconceito não é combatido simplesmente ignorando-se uma expressão ou palavra na qual ele está, supostamente, embutido. 

A verdadeira forma de se extrair a intenção não está na palavra, está nos atos.


Defendo a liberdade de ideias e o respeito acima de tudo. Abaixo a fofolândia!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Gentilezas


Essas coincidências da vida são intrigantes. Estava eu percorrendo as horas do meu cotidiano agitado quando me deparei com uma plaquinha semelhante a essa da imagem. Num dia de trânsito caótico aqui na minha cidade (greve total de transporte coletivo, imagina só os nervos à flor da pele do povo andante), a tal plaquinha parecia um recado sarcástico, irônico e inatingível.

Parei um pouquinho para pensar, afinal o engarrafamento monstro que enfrentava era mais do que um convite à reflexão. Quantas vezes fui rude assim, gratuitamente, só porque, naquele exato momento, estava eu matutando com meus botões algo não tão agradável... algumas vezes, por certo, talvez mais do que devesse ou quisesse.

Tenho muitos defeitos. Alguns deles tão colados à minha personalidade que são difíceis de me imaginar sem eles, embora eu tente. Um de meus traços negativos marcantes é, com certeza, a impaciência. Não aquela assim, gratuita, mas a impaciência que aflora quando se chega ao limite daquilo que considero aceitável. Esta impaciência pode ser com relação a situações, coisas ou pessoas. Tudo e todos podem ser alvos.

Quando atinjo meu limite (aquele que só eu sei qual é), o negócio entorta. Crio um cercado tão pesado e duro em torno daquela situação ou pessoa que nem eu mesma, querendo, consigo transpor. Mais fácil deixar como está e seguir em frente.

Esta, porém, não é a atitude esperada de alguém que pretende melhorar.

Gentileza gera gentileza. Humf, pois bem. Vamos lá, depurar os defeitos.

Até que ponto você será apenas gentil ou um tremendo e patético idiota? Merece gentileza aquele que te desrespeita? Agride? Engana? Tira vantagem? Simula? Mente? Puxa o tapete? Tenho dificuldades em aceitar essas situações como geradoras natas de gentilezas, embora acredite que desafetos estão mais preparados para as agressões do que para as gentilezas.

Talvez seja esse o recado da plaquinha. Mas, confesso, difícil aplicá-la na prática. Ouso discordar, sob certos aspectos da tal máxima. É claro, porém que os alvos devem ser certeiros, jamais gratuitos. Estas situações, sim, merecem atenção e cuidados.

Buscarei diferenciá-las. Afinal, hoje, dia 29 de maio, é o Dia Nacional da Gentileza.

Coincidência, não?

sábado, 12 de maio de 2012

Maternidade


Dias das mães se aproximando e o tema merece mais do que respeito. Merece post especial.

Eu poderia aqui escrever sobre minha mãe, sobre a mãe de minha mãe, sobre as mães que conheço, sobre mim mesma, mulheres especiais que trilham o caminho da maternidade...mas escolho algo diferente.

Quero escrever sobre sentimentos maternos. Abordando assim, consigo escrever sobre tudo o que acima expus, de modo ainda mais carinhoso e sensível, tal como as mães são.

Difícil explicar e, pior ainda, traduzir em palavras, a ideia de gerar um filho. Tem lá os seus desconfortos e ansiedades, período de medos e tiros no escuro, mas a grande verdade é que a vida brotando no ventre é muito superior ao desconhecido. É forte, é poderoso, é mágico. A maioria de nós mergulha de cabeça na experiência. Comigo também foi assim.

Descobri que estava grávida no banheiro do escritório em que trabalhava já há muitos anos. Aquele simples teste de farmácia, que até hoje guardo com as duas fitinhas azuis marcadas, fez mudar minha vida para sempre. Tanto que nem é possível lembrar, hoje, de como era, como fui e como minha vida se apresentava antes daquele dia. Isso porque tudo só passou a fazer sentido a partir daquele momento.

Levei um susto. Por alguns segundos, o tempo parou...

A primeira sensação que tive foi de que nunca mais estaria sozinha. Logo eu, que era tão individualista... Alguém, agora, dependeria exclusivamente de mim. E esta dependência perduraria por bons anos e só eu mesma conseguiria suprir-lhe os desejos mais básicos de sobrevivência, convivência, experiência, ciência, e todas as inúmeras "ências" que se apresentassem. Isto foi assustador. Não havia mais retorno, era preciso encarar de frente o desafio.

Medo...Insegurança...Dúvida. Será que conseguirei transmitir algo de bom? Tenho algo de bom? Isso é bom? Perguntas pipocavam e latejavam em meus pensamentos e só aumentavam junto com a circunferência da minha barriga, num processo lento e contínuo...

A maternidade coloca à prova, de imediato, os teus próprios valores. Filtros são inevitáveis...

O que é essencial à vida? Que valores quero replicar e fazer perpetuar? Qual o limite da minha metade de responsabilidade perante essa criança? Existe limite, existe metade ou apenas um conjunto indivisível entre pai, mãe e filho? Conscientemente, concentrei-me no papel de mãe. Era o que competia a mim.

Foi o maior exercício de auto conhecimento a que fui exposta. Tive que aprender rápido e deixar pronto, junto com meu corpo, minha disposição e meus sentidos, as ações e planejamentos para os próximos dois anos... E depois por mais três, e agora já parto para o terceiro plano temporal.

Fiz assim, por etapas. Virginiano é bicho irritante. Para mim, foi bom. Consegui, dessa forma, ter lucidez nesse emaranhado de emoções e descobertas infindáveis. Viver uma experiência de cada vez pareceu-me mais lógico e permitiu-me intensificar as emoções.

Facilitou muito o grande exemplo que tenho como mãe. Puxando pela memória (sim, maternidade também te faz voltar ao passado), foi simples reviver os momentos do cotidiano e replicar minha maternidade na mesma proporção e força da forma como fui cuidada e, mais do que isso, conduzida. Repeti, sem medo de plágio, sem pedir autorização. Em time que está ganhando não se mexe. Minha mãe acertou muito, acertou demais. Trilhar outro caminho, pra quê?

Nos momentos em que a insegurança bate, e ainda são muitos, essa busca ao passado me acalma e traz confiança. Só transmite confiança quem acredita. Eu acredito que o que faço é o melhor... A energia flui e o amor é o maior alimento dessa energia... e amor de mãe...isso me sobra aos montes. Vi e senti amor de mãe em doses extraordinárias... Transferir esse mesmo amor à minha filha foi simples demais. Os créditos desta história não são só meus.

O medo e a insegurança do início, do meio, e até quando o fim chegar, foram e sempre serão instrumentos para a construção de certezas. Em se tratando de maternidade, não há segunda chance. A cada encruzilhada (e são muitas, sempre), o caminho escolhido se subdivide lá na frente de novo, enquanto que o não escolhido se dissolve como castelo de areia ao vento. Sendo assim, melhor escolher na certeza...dominar o medo e a angústia e dedicar-se a fazer sempre o seu melhor.

As retribuições de todo o esforço costumam vir em dobro e sob diversas formas: beijos melecados, desenhos significativos, cheiros doces, polegares dizendo 'sim', frases surpreendentes, olhares carinhosos, um sem número de 'eu te amo' na mesma proporção do chamado 'manhê!', ...e tudo isso constrói mais certezas, num ciclo saboroso e revigorante.

Tudo fez sentido a partir daquelas duas tirinhas azuis.

Não conheço nada melhor do que ser mãe, do que ter uma mãe e de sentir, transmitir e pulsar, todos os dias, aquele que é o amor mais puro e mais sublime de todos. Amor que não pede passagem, que não cobra e nem espera, amor que dedica, alimenta e silencia. Ensina e engrandece. Amor que conhece e afaga, renasce e brota, acalma e faz bem. Amor que renuncia e dedica, amor que não se explica, amor que, apenas, se aprende vivendo.

Agradeço a Deus por ter sido duplamente agraciada: ter e ser mãe é privilégio de poucas.

Feliz Dia das Mães!!
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