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terça-feira, 3 de julho de 2012

Meus sentidos





Meus sentidos estão sempre sendo colocados à prova de alguma coisa. Gosto desta sensação. Estar atenta aos acontecimentos, aos detalhes, aguça a percepção e me faz sentir viva.

Treino minha audição para ser seletiva. Muito se escuta, pouco se aproveita. Estar pronta quando algo a escutar é importante é meu lema. O resto vira simplesmente, o resto. E detesto quando acabo errando o alvo. A mira certa depende de muito treino e dedicação.   

Meu olfato é mais ligado a memórias. O cheiro da infância, do colo da mãe, do perfume que mais gosto, da receita nova, o lençol amaciado, o cangote da minha filha. É preciso estar pronta a viver bons momentos, e recordar. 

Texturas, sabores... tato e paladar dedicados e atentos. 

Para a visão, algo especial. Tento forçá-la a captar imagens sem ser percebida. Aparentemente distraída, aos olhos dos outros, é quando os acontecimentos se revelam mais explicitamente. É o mais grandioso dos sentidos e de onde se extrai maiores responsabilidades. Eu 'ouvi dizer' é fraco... eu 'vi' é poderoso...um verdadeiro divisor de águas. Melhor ver sem ser vista. 

Sentidos são nossas ferramentas de exploração da vida. Com eles sentimos as emoções, vivenciamos experiências, desafiamos a inteligência e a força da natureza. Com eles, nos tornamos únicos, captamos da vida o que de melhor e de pior ela pode oferecer e só com eles saímos das derrotas que eles próprios nos colocaram...e comemoramos as vitórias por eles também coroadas. 

Os sentidos são resultado de escolhas. Nossas escolhas. Consequências mil que plainam em torno do que se constrói. A eterna dinâmica da ação e reação da vida. 

O doce acalma o amargo que está por vir. Lixam-se as asperezas com pulso firme. Respiro fundo e vejo que, na verdade, dentro do meu silêncio moram todos os sons.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rotina, sua linda!


Sempre fui muito apegada à rotina. Ter uma, no meu singelo conceito, transmite segurança, controle, precisão. Talvez falso, mas o suficiente para dar uma sensação prazerosa de domínio do seu dia a dia.

Por essas circunstâncias da vida, a rotina alterou-se um pouco por aqui. Virou de pernas para o ar o que, há tanto tempo, parecia já fixo e enraizado. O horário de todos já não é mais o mesmo, as saídas e chegadas, idem e percebo o quanto isso me desestabiliza.

É ruim.

É bom.

Ruim porque quebra o que antes já estava certo. Incomoda porque é preciso reprogramar uma série de fatos que já estavam no automático. Muito se perde, pouco se conquista a curto prazo.

Bom porque sacode a estabilidade. Desencapa a zona de conforto e aparece uma nova fonte de prioridades, um novo reprogramar. Permite novas experiências, desafios.

Mudanças sempre são problemáticas. Ninguém gosta, ou pelo menos, muito pouca gente procura mudanças o tempo todo. Mas, por vezes, elas são inevitáveis. Chegam sem pedir licença, escancaram a porta das nossa casa e se instalam no sofá, sem cerimônia.

Nessas horas, é bom saber que uma nova rotina logo logo chegará, e colocará tudo nos eixos novamente. E a vida seguirá seu curso. E quando nos acostumamos, assim, só pra variar, outras instabilidades podem provocar rachaduras.

Enquanto a viga estiver firme, tudo certo...

sábado, 2 de junho de 2012

Fofolândia


Hoje o post é dedicado a um mal que assola a sociedade brasileira: o politicamente correto.

Ser mais chato, padronizado, inoperante e dispensável não há.

Estamos cercados de politicamente corretos. Literalmente, a fofolândia se instaurou em todos os lugares. Não há mais discussões de ideias, mesmo em tese, porque todo mundo tem receio de expor sua opinião, temendo ser detectado por um politicamente correto, a que tudo pode ofender, ter uma mensagem subliminar não adequada, estar na contra mão do que o senso comum da fofolândia já estabeleceu como correto.

Pois bem. E assim estamos vivendo. Uma nova forma de censura. A censura do politicamente correto que impede, cala, e tolhe o efetivo exercício de liberdade de expressão.

Mais fácil agradar a todos, sem dúvida. Mais fácil também achar que o petróleo é vilão, política de cotas é a solução, usar animais em pesquisas científicas é tortura. Qualquer coisa que foge ao senso comum passa a ser preconceituoso e mal visto. Estamos caminhando para uma sociedade de cresce treinada a pensar de um jeito globalizado, sob pena de banimento. O exercício do contraditório está morrendo, aos poucos, mas numa continuidade assustadora.

Hoje, chamamos de bullying o que todos nós já enfrentamos na escola um dia. Evidente que há a agressão, o exagero, o perverso, e isso sim deve ser mediado. Mas, por certo, todo e qualquer percalço que uma criança passa na escola não pode ser assim interpretado. Se a nota da criança foi 8,0 na prova, lá vai uma comissão de pais, avós, periquitos e papagaios enfrentar a professora, direção e o papa para mostrar a indignação justificada porque alguém 'não ensinou direito'. Se seu filho está sendo excluído da panelinha recém formada por algum motivo, lá segue a mesma comissão para tirar satisfação. E isso, ainda, é interpretado por todos como 'atitude de verdadeiros pais e mães'.

Preservar o meio ambiente é levantar a bandeira contra as sacolas plásticas, mas ninguém se preocupa em saber qual a destinação do lixo que a sua casa gera todos os dias.

Ninguém mais é apenas 'masculino' ou feminino'. Virou ofensa perguntar, numa ficha cadastral, qual seu sexo. A pergunta deve ser substituída por 'orientação sexual'.

Raças não existem. Negro não é negro, amarelo não é amarelo, branco e vermelho, idem. 

As cidades têm que ser rasgadas por ciclovias, mesmo que ninguém as use. 

O saci é um afro descendente com necessidades especiais. Ladroagem é improbidade. Gordo é IMC em faixa de risco.

Hoje, tudo se conversa, mas nada se discute. É perigoso. Dá ação de dano moral. Vira ameaça. Exclui. Ninguém quer receber um carimbo na testa e ser taxado negativamente, aos olhos do senso comum. Consequência direta: os diálogos, hoje, são mornos. Ninguém emite opinião. Tudo se resume a discutir se o tempo está chuvoso, frio ou quente, mostrar o carro que comprou ontem, fazer cara de paisagem, postar no facebook as melhores fotos, estar sempre sorridente, colocar sobre a mesa o celular de última geração, junto com o Ipad...e aí daquele que não tiver a maçã mordida!

Sem perceber, criamos a realidade de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo Novo. Ele apenas escreveu um livro que previa, num futuro hipotético, onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais. Nós, concretizamos e entendemos perfeita essa lógica através do que é politicamente correto.

Por certo, o preconceito não é combatido simplesmente ignorando-se uma expressão ou palavra na qual ele está, supostamente, embutido. 

A verdadeira forma de se extrair a intenção não está na palavra, está nos atos.


Defendo a liberdade de ideias e o respeito acima de tudo. Abaixo a fofolândia!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Gentilezas


Essas coincidências da vida são intrigantes. Estava eu percorrendo as horas do meu cotidiano agitado quando me deparei com uma plaquinha semelhante a essa da imagem. Num dia de trânsito caótico aqui na minha cidade (greve total de transporte coletivo, imagina só os nervos à flor da pele do povo andante), a tal plaquinha parecia um recado sarcástico, irônico e inatingível.

Parei um pouquinho para pensar, afinal o engarrafamento monstro que enfrentava era mais do que um convite à reflexão. Quantas vezes fui rude assim, gratuitamente, só porque, naquele exato momento, estava eu matutando com meus botões algo não tão agradável... algumas vezes, por certo, talvez mais do que devesse ou quisesse.

Tenho muitos defeitos. Alguns deles tão colados à minha personalidade que são difíceis de me imaginar sem eles, embora eu tente. Um de meus traços negativos marcantes é, com certeza, a impaciência. Não aquela assim, gratuita, mas a impaciência que aflora quando se chega ao limite daquilo que considero aceitável. Esta impaciência pode ser com relação a situações, coisas ou pessoas. Tudo e todos podem ser alvos.

Quando atinjo meu limite (aquele que só eu sei qual é), o negócio entorta. Crio um cercado tão pesado e duro em torno daquela situação ou pessoa que nem eu mesma, querendo, consigo transpor. Mais fácil deixar como está e seguir em frente.

Esta, porém, não é a atitude esperada de alguém que pretende melhorar.

Gentileza gera gentileza. Humf, pois bem. Vamos lá, depurar os defeitos.

Até que ponto você será apenas gentil ou um tremendo e patético idiota? Merece gentileza aquele que te desrespeita? Agride? Engana? Tira vantagem? Simula? Mente? Puxa o tapete? Tenho dificuldades em aceitar essas situações como geradoras natas de gentilezas, embora acredite que desafetos estão mais preparados para as agressões do que para as gentilezas.

Talvez seja esse o recado da plaquinha. Mas, confesso, difícil aplicá-la na prática. Ouso discordar, sob certos aspectos da tal máxima. É claro, porém que os alvos devem ser certeiros, jamais gratuitos. Estas situações, sim, merecem atenção e cuidados.

Buscarei diferenciá-las. Afinal, hoje, dia 29 de maio, é o Dia Nacional da Gentileza.

Coincidência, não?

sábado, 12 de maio de 2012

Maternidade


Dias das mães se aproximando e o tema merece mais do que respeito. Merece post especial.

Eu poderia aqui escrever sobre minha mãe, sobre a mãe de minha mãe, sobre as mães que conheço, sobre mim mesma, mulheres especiais que trilham o caminho da maternidade...mas escolho algo diferente.

Quero escrever sobre sentimentos maternos. Abordando assim, consigo escrever sobre tudo o que acima expus, de modo ainda mais carinhoso e sensível, tal como as mães são.

Difícil explicar e, pior ainda, traduzir em palavras, a ideia de gerar um filho. Tem lá os seus desconfortos e ansiedades, período de medos e tiros no escuro, mas a grande verdade é que a vida brotando no ventre é muito superior ao desconhecido. É forte, é poderoso, é mágico. A maioria de nós mergulha de cabeça na experiência. Comigo também foi assim.

Descobri que estava grávida no banheiro do escritório em que trabalhava já há muitos anos. Aquele simples teste de farmácia, que até hoje guardo com as duas fitinhas azuis marcadas, fez mudar minha vida para sempre. Tanto que nem é possível lembrar, hoje, de como era, como fui e como minha vida se apresentava antes daquele dia. Isso porque tudo só passou a fazer sentido a partir daquele momento.

Levei um susto. Por alguns segundos, o tempo parou...

A primeira sensação que tive foi de que nunca mais estaria sozinha. Logo eu, que era tão individualista... Alguém, agora, dependeria exclusivamente de mim. E esta dependência perduraria por bons anos e só eu mesma conseguiria suprir-lhe os desejos mais básicos de sobrevivência, convivência, experiência, ciência, e todas as inúmeras "ências" que se apresentassem. Isto foi assustador. Não havia mais retorno, era preciso encarar de frente o desafio.

Medo...Insegurança...Dúvida. Será que conseguirei transmitir algo de bom? Tenho algo de bom? Isso é bom? Perguntas pipocavam e latejavam em meus pensamentos e só aumentavam junto com a circunferência da minha barriga, num processo lento e contínuo...

A maternidade coloca à prova, de imediato, os teus próprios valores. Filtros são inevitáveis...

O que é essencial à vida? Que valores quero replicar e fazer perpetuar? Qual o limite da minha metade de responsabilidade perante essa criança? Existe limite, existe metade ou apenas um conjunto indivisível entre pai, mãe e filho? Conscientemente, concentrei-me no papel de mãe. Era o que competia a mim.

Foi o maior exercício de auto conhecimento a que fui exposta. Tive que aprender rápido e deixar pronto, junto com meu corpo, minha disposição e meus sentidos, as ações e planejamentos para os próximos dois anos... E depois por mais três, e agora já parto para o terceiro plano temporal.

Fiz assim, por etapas. Virginiano é bicho irritante. Para mim, foi bom. Consegui, dessa forma, ter lucidez nesse emaranhado de emoções e descobertas infindáveis. Viver uma experiência de cada vez pareceu-me mais lógico e permitiu-me intensificar as emoções.

Facilitou muito o grande exemplo que tenho como mãe. Puxando pela memória (sim, maternidade também te faz voltar ao passado), foi simples reviver os momentos do cotidiano e replicar minha maternidade na mesma proporção e força da forma como fui cuidada e, mais do que isso, conduzida. Repeti, sem medo de plágio, sem pedir autorização. Em time que está ganhando não se mexe. Minha mãe acertou muito, acertou demais. Trilhar outro caminho, pra quê?

Nos momentos em que a insegurança bate, e ainda são muitos, essa busca ao passado me acalma e traz confiança. Só transmite confiança quem acredita. Eu acredito que o que faço é o melhor... A energia flui e o amor é o maior alimento dessa energia... e amor de mãe...isso me sobra aos montes. Vi e senti amor de mãe em doses extraordinárias... Transferir esse mesmo amor à minha filha foi simples demais. Os créditos desta história não são só meus.

O medo e a insegurança do início, do meio, e até quando o fim chegar, foram e sempre serão instrumentos para a construção de certezas. Em se tratando de maternidade, não há segunda chance. A cada encruzilhada (e são muitas, sempre), o caminho escolhido se subdivide lá na frente de novo, enquanto que o não escolhido se dissolve como castelo de areia ao vento. Sendo assim, melhor escolher na certeza...dominar o medo e a angústia e dedicar-se a fazer sempre o seu melhor.

As retribuições de todo o esforço costumam vir em dobro e sob diversas formas: beijos melecados, desenhos significativos, cheiros doces, polegares dizendo 'sim', frases surpreendentes, olhares carinhosos, um sem número de 'eu te amo' na mesma proporção do chamado 'manhê!', ...e tudo isso constrói mais certezas, num ciclo saboroso e revigorante.

Tudo fez sentido a partir daquelas duas tirinhas azuis.

Não conheço nada melhor do que ser mãe, do que ter uma mãe e de sentir, transmitir e pulsar, todos os dias, aquele que é o amor mais puro e mais sublime de todos. Amor que não pede passagem, que não cobra e nem espera, amor que dedica, alimenta e silencia. Ensina e engrandece. Amor que conhece e afaga, renasce e brota, acalma e faz bem. Amor que renuncia e dedica, amor que não se explica, amor que, apenas, se aprende vivendo.

Agradeço a Deus por ter sido duplamente agraciada: ter e ser mãe é privilégio de poucas.

Feliz Dia das Mães!!

domingo, 6 de maio de 2012

Lições do mundo craft


Já não é de hoje que estou encantada pelo mundo craft. Essa dedicação já deve estar alcançando quase um ano e, de lá pra cá, ganhei muito mais do que me dediquei.

Mais do que um simples hobby, aprendi a conviver e dominar com meus imediatismos, ansiedades e impaciências. Afinal, uma peça, não fica pronta e acabada no mesmo dia, no momento em que eu determinar, mas sim, apenas quando todos os elementos, todas as partes do conjunto, forem finalizadas.

Ontem fui a uma feira de patchwork, que aconteceu aqui na minha cidade. Foi o Floripa Quilt, um festival que reuniu quilteiras e crafteiras do país todo. Trabalhos e mais trabalhos eram delicadamente distribuídos por vários stands. Ideias, mimos e carinhos de todos os tipos. Pessoas de todas as idades admiravam, compravam, se encantavam com os trabalhos de, igualmente, profissionais de todas as idades.

Eu, do meu lado, fiquei impressionada com algumas peças. O tempo de dedicação ali depositado parecia infinito, além de, é claro, o capricho e a perfeição que eram um detalhe à parte. Uma lição ficou: a capacidade de se criar coisas lindas supera qualquer dificuldade.

E outra lição: vi que não estou tão atrás assim, mesmo sendo praticamente iniciante e auto didata: meus olhos virginianos alcançaram facilmente defeitos horrorosos nas peças em patchwork embutido. Encorajei-me um pouco mais a avançar, na certeza de que minhas peças são de qualidade.

Reencontrei amigas de longa data, mães de amigas de longa data em mais uma tarde agradável com minha mãe, também crafteira de mão cheia. Rimos, suspiramos, acalmamos, nos inspiramos...

Novos trabalhos virão...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Torradas queimadas


Sentei-me para escrever mais um post. Antes disso, resolvi apenas abrir meu e-mail. Mais uma das tantas vezes que chequei a caixa de mensagens hoje...
Lá, havia uma, de uma querida amiga, Patrícia. Aquela amiga de infância, cujas memórias são doces e engraçadas, e que, depois de tantos anos, as redes virtuais permitem nova aproximação e encontros.
Abri, assim, imaginando que o teor da mensagem fosse, apenas, os detalhes do café que estamos planejando. Mas foi mais do que isso.
Recebi a mensagem abaixo. Linda e exatamente sobre o assunto a que me dispunha, inicialmente, a escrever.
Um texto tão simples e tocante, que pode sintetizar o modo com o qual deveríamos nos relacionar com todas as pessoas e com o mundo em que, infelizmente, predominam a intolerância, o preconceito e a ingratidão. E assim chegou até mim 'Torradas Queimadas', cujo autor é desconhecido, mas sua intenção e sensibilidade jamais deveriam sê-lo:


TORRADAS QUEIMADAS!

Quando eu ainda era um menino, ocasionalmente, minha mãe gostava de fazer um
lanche, tipo café da manhã, na hora do jantar. E eu me lembro especialmente
de uma noite, quando ela fez um lanche desses, depois de um dia de trabalho,
muito duro.

Naquela noite, minha mãe pôs um prato de ovos, linguiça e torradas
bastante queimadas, defronte ao meu pai. Eu me lembro de ter esperado
um pouco, para ver se alguém notava o fato. Tudo o que meu pai fez, foi pegar a sua
torrada, sorrir para minha mãe e me perguntar como tinha sido o meu dia, na
escola.

Eu não me lembro do que respondi, mas me lembro de ter olhado para ele
lambuzando a torrada com manteiga e geléia e engolindo cada bocado.

Quando eu deixei a mesa naquela noite, ouvi minha mãe se desculpando por
haver queimado a torrada.
E eu nunca esquecerei o que ele disse:
" - Adorei a torrada queimada..."

Mais tarde, naquela noite, quando fui dar um beijo de boa noite em meu pai,
eu lhe perguntei se ele tinha realmente gostado da torrada queimada.
Ele me envolveu em seus braços e me disse:

" - Companheiro, sua mãe teve um dia de trabalho muito pesado e estava
realmente cansada... Além disso, uma torrada queimada não faz mal a
ninguém. A vida é cheia de imperfeições e as pessoas não são perfeitas. E eu
também não sou o melhor marido, empregado, ou cozinheiro, talvez nem o
melhor pai, mesmo que tente todos os dias!"

O que tenho aprendido através dos anos é que saber aceitar as falhas
alheias, escolhendo relevar as diferenças entre uns e outros, é uma das
chaves mais importantes para criar relacionamentos saudáveis e duradouros.

Desde que eu e sua mãe nos unimos, aprendemos, os dois, a suprir um as
falhas do outro. Eu sei cozinhar muito pouco, mas aprendi a deixar uma
panela de alumínio brilhando.
Ela não sabe usar a furadeira, mas após minhas reformas, ela faz tudo ficar
cheiroso, de tão limpo. Eu não sei fazer uma lasanha como ela, mas ela não
sabe assar uma carne como eu. Eu nunca soube fazer você dormir, mas comigo
você tomava banho rápido, sem reclamar.
A soma de nós dois monta o mundo que você recebeu e que te apoia, eu e ela
nos completamos. Nossa família deve aproveitar este nosso universo enquanto
temos os dois presentes. Não que mais tarde, o dia que um partir, este mundo
vá desmoronar, não vai. Novamente teremos que aprender e nos adaptar para
fazer o melhor.

De fato, poderíamos estender esta lição para qualquer tipo de
relacionamento: entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos, colegas e com
amigos.

Então filho, se esforce para ser sempre tolerante, principalmente com quem
dedica o precioso tempo da vida, a você e ao próximo.

"As pessoas sempre se esquecerão do que você lhes fez, ou do que lhes disse.
Mas nunca esquecerão o modo pelo qual você as fez se sentir."

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quanto tempo...


Tenho certeza que nunca fiquei tanto tempo sem escrever algo no blog. Esse projeto que, de forma totalmente despretensiosa, chegou de mansinho e garantiu lugar cativo no meu cotidiano.

Mais do que um blog, ele é um diário de uma vida, vivida sob muitas perspectivas. Um caminho cujo traçado se faz aos poucos, lentamente, e tão inesperado quanto um dia de sol que de repente escurece, mudando todos os planos.

Neste mês de ausência não forçada, permiti-me fazer outras coisas, apaixonar-me por outras estradas, outras formas de viver meus momentos quase raros de lazer, para esvaziar a mente das poluições cotidianas.

Descobri o artesanato, a dança, a vida leve... Não houve abandono do blog, muito ao contrário... Frequentemente passava por aqui. Não para escrever, mas sim para rememorar, reler, rever tudo que já passei, escrito nas linhas e principalmente nas entrelinhas. Estas são as melhores. Risadas, lágrimas, sustos, altos e baixos. Tem de tudo por aqui... Assim como a vida, a vida de qualquer um.

Os fatos falam por si só. Fatos remetem a reflexões de quem quer olhar o todo sob novas formas. Desfocar, às vezes, faz bem. Muda trajetórias, revê conceitos, refaz o conjunto.

Estou de volta, repaginada, talvez, mas sempre com a cabeça cheia de ideias. Estou viva!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quando os sinos tocam...

 

O post de hoje é inspirado em um texto que chegou assim, despretensiosamente, às minhas mãos, por meio de uma sensível amiga. Disse ela que tinha certeza de que eu adoraria lê-lo. Acertou em cheio.

O texto é de José Saramago, este renomado escritor português, que justifica ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 (só?), tamanha sensibilidade e perfeição de seus textos. Tem como título a intrigante metáfora: Da justiça à democracia, passando pelos sinos.

Obviamente, não chego aos pés de Saramago, mas dou-me ao luxo de parafraseá-lo quantas vezes entender possível, ao longo do que hoje resolvi escrever.

Em síntese, Saramago buscou provocar seu leitor a refletir sobre justiça e democracia, estes conceitos abstratos a que tantas vezes foram cenários de inúmeros pensamentos meus. Atualmente, o que penso sobre estas duas concepções não chegam perto da ideia original que tinha, muito antes de pensar que dedicaria minha vida profissional ao Direito.

Teoricamente, a sociedade defende a justiça com imenso afinco, esquecendo-se que, na prática, muito mais se lhe provoca a morte. Todos os dias. Agora mesmo, perto ou longe e até ao lado de nossa casa, alguém a está matando. E se há morte é como se a justiça nunca tivesse existido para os que nela confiam. Saramago provoca ainda mais, criticando ferrenhamente a justiça que se envolve em túnicas teatrais ou a que nos confunde com flores de vã retórica judicialista. Aquela que permite vendar-lhe os olhos ou viciar os pesos da balança. Aquela da espada que sempre corta mais para um lado do que para o outro. Quer exaltar, ao contrário, a justiça idealizada como uma companheira cotidiana da sociedade, para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo de ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito com indispensável à vida é o alimento do corpo.

Quando tudo se encontra limitado ao simples exercício do cumprimento das obrigações cotidianas nada mais há senão o dócil e burocratizado sistema (in)consciente, culminando num adormecimento social flagrante. E, utilizando metáforas de forma magistral, Saramago ainda alerta que, assim, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

Com a democracia não é diferente. Classicamente, é um governo do povo, pelo povo e para o povo. Bela teoria, mais uma vez. Contudo, o que se tem é uma gestão falsamente democrática, concebida a partir de uma centelha chamada voto. É verdade que somos reconhecidamente cidadãos eleitores, capazes de votar, mas nossas escolhas são limitadas a segmentos partidários compostos apenas de relevância numérica e de incontáveis combinações políticas duvidosas.

Podemos, sim, desbancar um governo e pôr outro no lugar. Saramago provoca... será mesmo? Convida-nos a refletir afirmando que o voto não teve, não tem nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa e gira o globo: o poder econômico. Grande parte desse poder é gerenciado por gigantes que, de acordo com suas estratégias de domínio, distanciam-se, sem culpa, do bem comum, do coletivo e de tudo que, por definição, é próprio da democracia.

No fundo, no fundo, todos sabemos que é essa a crueldade real, mas por algum automatismo verbal ou mental nos forçamos a não enxergar o que está diante dos nossos olhos e continuamos a falar de democracia como se fosse algo vivo e dinâmico, real e concreto, quando ela é apenas um conjunto de formas ocas, inócuas e ritualizadas. E por uma espécie esquisita de auto proteção, esquecemos que alguma parcela de culpa nos cabe, e nos forçamos a também girar a roda da mesma maneira que dantes. Assim, reproduzimos e nos tornamos meros comissários políticos do poder econômico, com sua objetiva missão de produzir leis convenientes, para depois, envolvidas nos açúcares da publicidade oficial, serem introduzidas na sociedade sem demandar protestos, exceto pelas minorias baderneiras eternamentes descontentes. Sim, os descontentes são taxados de baderneiros. Simples assim. E o grito que poderia ser o início de um grande berro é sonoramente reduzido a ruído irritante, aquele que se quer desligar a qualquer custo.

E, enfim, tudo volta ao seu ciclo normal. Engano, mero engano. E não há pior engano do que o daquele que a si mesmo engana.

E o que têm os sinos a ver com tudo isso? Ah... só lendo Saramago pra saber...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Quanto vale a sua honra?

 

A história de hoje vem de Curitiba, lida no portal G1, numa dessas minhas andanças pelas notícias virtuais do dia de hoje.

Uma senhora aposentada, de 84 anos, pagou uma dívida que fez há cinquenta anos atrás, no mercado de seu bairro. Ela deixou de pagar, na época, porque passava por sérias dificuldades financeiras, o valor de 7.940 cruzeiros.

Hoje, com orgulho, pagou sua dívida, atualizada e corrigida em R$ 150,00, referente a  um pacote de açúcar, três pacotes de café, dois quilos de arroz, um pacote de macarrão, meio quilo de banha, um quilo de feijão e um pote de margarina. O dono do mercado, que já nem se lembrava mais da tal dívida, emocionou-se com o pagamento, que não pôde ser recusado, a pedido da antiga devedora, que disse ficar ofendidíssima caso o dinheiro não fosse aceito. Até o bilhete, com as anotações da compra, foram guardados pela aposentada, que revelou ainda 'nunca ter esquecido' da dívida que fez e que não conseguira honrar, por motivos que fugiram de seu controle.

A história, simples, tocou-me profundamente. Fez-me refletir o quanto vale a honra, não aquela medida por números os cifrões, mas a que se traduz pela retidão e pela honestidade de brasileiros que, apesar de bombardeados com excessos de corrupção, falcatruas e desmandos, ainda insistem em fazer, tão somente, o que é certo. Simples assim.

Inspiração pura!

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