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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Comunicação falha


Vez ou outra isso ocorre... uma mensagem com determinada intenção parte do seu agente e chega ao seu receptor truncada, abafada, sem nexo.

Resultado: o receptor interpreta-a a seu gosto, o que, na maioria das vezes, é bem diferente da intenção original do que emitiu a tal.

Até aqui, tudo bem... sinais ocupados e interferências podem até ser considerados corriqueiros, sem gravidade suprema... o problema é quando aquele que recebeu a mensagem truncada, toma-a como verdade absoluta.

E, em geral, esta verdade 'absoluta', aos olhos ouvidos do receptor de orelha suja, acaba se transformando em  ofensa. O desgosto lhe corrói a alma, a raiva, a decepção, a tristeza...
Afinal, eram amigos... como pude acreditar naquele que hoje se mostra tão cruel, tão falso...?

Mais uma vez, falha na comunicação. Ouvir de terceiros uma história que envolve a sua pessoa, merece cautela. Afinal, qual a verdadeira intenção daquele que lhe conta a tal história? Seria mesmo verdade aquilo que lhe foi contado?

Confesso que aprendi, a duras penas, separar e filtrar o que chega até os meus ouvidos... e dou pouca importância a histórias alheias que vêm recheadas ou pingadas de venenos. Cansa... Passei a limpar com mais frequência meus canais auditivos.

E me fez bem.

Já era seletista... fiquei pior.

E quem ouve menos, fala menos. É um bom exercício. Fiz isso porque percebi que até mesmo o que você fala, ecoa erradamente, não traduzindo com perfeição sua real intenção. Um comentário sem maldade, acompanhado de um suspiro e de um olhar desdenhoso pode ser multiplicado rapidamente com maldade, e ainda atribuído à sua pessoa a autoria.

Melhor não arriscar. Em boca fechada nunca entrou mosca. Moscas preferem podridão e sujeira... longe de mim.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Frases de todo dia


Eu sempre fui apaixonada por frases. Não qualquer frase, é claro, mas principalmente as curtas (no tamanho), mas enormes de conteúdo. A capacidade do autor em sintetizar um pensamento reflexivo em apenas uma única frase, daquele jeito em que o leitor fica em silêncio, durante algum tempo, após lê-la é um talento que admiro muitíssimo.

Vagando eu pelos sites da internet, estava à procura de um adesivo decorativo para a minha sala. Encantei-me com árvores e frases, por certo. São milhares de opções de letras, cores, formas, tamanhos, que dá até vontade de desistir...

Qualquer frase é possível personalizar, e é preciso encontrar aquela que mais combina com o contexto do ambiente, o estilo dos moradores e com a mensagem que se pretende deixar marcado a todos que visitam aquele ambiente.

Então, estou à procura desta tal.

E nesta procura - aliás, a melhor parte - lembrei do quanto amo frases reflexivas e impactantes... Fui atrás das melhores frases do mundo. Encontrei aquelas que mais se repetem em vários sites com este propósito, e praticamente todos se concentram em três pensadores, não por acaso, dos maiores gênios da humanidade...

Friedrich Nietzsche, filólogo alemão.
William Shakespeare , poeta e dramaturgo inglês
e Winston Churchill, historiador, escritor e estadista notável.


Doos três, pérolas incríveis deparo-me todos os dias. Suas frases são um deleite para a reflexão, um convite ao pensamento fértil e ao crescimento espiritual.

Continuarei a minha pesquisa até encontrar 'a' frase que traduz o que pretendo...

Vem comigo e faça também sua viagem...

Do alemão:

"A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.” 
“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.” 
“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.” 
“É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.” 
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” 


Do inglês:

“A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial.” 
“Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador.” 
“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” 
“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” 
“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.” 


E do estadista, minhas preferidas:

“O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.” 
“O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo.” 
“Se você está atravessando o inferno… não pare.” 
“O vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesse; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias” 
“Todas as grandes coisas são simples. E muitas podem ser expressas numa só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança.”

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pequenas invasões cotidianas


Odeio que invadam o meu espaço. Acredito que todo ser humano se incomode com invasões, mas a pior delas é a do tipo sutil, que vai ocupando aos pouquinhos, até culminar no domínio total de um território que antes lhe pertencia.

As pequenas invasões cotidianas se mostram insuportáveis dependendo do grau de tolerância do antigo ocupante... Confesso, o meu é extremamente pequeno.

Existem espaços que você permite a alguns privilegiados compartilhar, outros nunca. São espaços sagrados o seu quarto, sua mesa de trabalho, seu corpo, seu hobby, sua cozinha, sua bolsa, telefone celular. Alguns ainda são mais radicais e não compartilham pessoas, animais e até mesmo objetos absolutamente fora de qualquer suspeita. E tudo isso sem que o, às vezes, inocente  invasor, saiba ou imagine. 

Aquela cadeira que só você senta, a caneca preferida, o livro xodó, o espaço do armário, são todas barreiras interpessoais difíceis de enxergar, mas que continuam muito vivas aos olhos do seu proprietário, irritando sobremaneira aquele que se vê invadido.

E a modernidade ainda chega com mais espaços, os virtuais... ou será que você não se irritaria ao saber que seu email pessoal foi lido por terceiros?

Na verdade, só não é invadido quem aprendeu a deixar muito claro aos demais onde estão os limites demarcatórios do seu espaço. E isto só é conquistado às custas de muita prática negativa e, às vezes, deixa inimigos pelo caminho... 

E segue mais uma das escolhas da vida: ou aprende a dizer claramente qual seu território, ou as pequenas invasões cotidianas continuarão a irritar... Ainda estou aprendendo, mas já avancei bastante...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sessentona


Hoje, 26 de janeiro, minha mãe completa 60 anos. Uma data que será muito bem comemorada, por ela, e por todos que a amam.

Na verdade, acho que nunca, verdadeiramente, tinha imaginado minha mãe com sessenta anos de idade. Quando se é criança, mãe é o símbolo de toda a perfeição, a fortaleza, de seriedade, carinho, honestidade, bravura. É em quem mais confiamos. É nosso espelho, nossa imagem projetada.

Lembro até hoje o quanto admirava suas unhas compridas e vermelhas, desejando ferrenhamente ter idade para que pudesse, igualmente, ostentá-las assim. Lembro nitidamente também do quanto ela sempre foi presente na minha vida escolar, do controle saudável que exercia sobre todos os meus passos, horários, alimentação, saúde. Do quanto articulou para ensinar-me seus valores e convicções, desde as formas mais sutis até as mais escancaradas.

E o jeito que arrumava a casa. Os locais que escolhia para dispor os móveis e utilidades domésticas. A rotina perfeita que estabelecia. O eterno ir e vir entre levar e trazer para os cursos extra curriculares que fazia.

A disponibilidade que ela tinha, mesmo diante de seus inúmeros afazeres, sempre foi marcante em minha vida. Era fácil perceber que seus filhos estavam em primeiro lugar. Ela sempre deixou muito claro.

Lembro de brincar de idade. Imaginava, junto com ela, assim: e quanto eu tiver vinte anos (nossa, vinte anos!!!!) você mãe terá quarenta e quatro! Putz, quarenta e quatro... e gargalhadas mil aconteciam...

 - E quanto eu tiver trinta, você terá cinquenta e quatro. E quando você tiver sessenta anos, mãe, quantos anos eu terei?

 - Trinta e cinco, filha, você terá trinta e cinco... e quando eu tiver sessenta, quero comer muito doce, todos os doces que eu quiser! Quero ser uma vovó doce, bem doce... mas isso ainda vai demorar muito tempo! 

E o tempo passou... E foi mais rápido do que eu pensei.

Já consigo pintar minhas unhas de vermelho e andar de sapato alto o dia inteiro, sem precisar pegar os dela no armário, para brincar de mulher. Já tenho minhas próprias maquiagens e até pinto seus olhos verdes, de vez em quando, lindos, como sempre. Hoje, sou eu que estabeleço minha rotina, meus horários e gerencio a minha vida, espelhado no jeitinho que ela ensinou. 

Costumo guardar os objetos aqui de casa da mesma forma que ela sempre fez. O lugar do óleo de cozinha, dos vidros com mantimentos, a posição da gaveta dos panos de prato, talheres, assim como o rolo de macarrão, conchas, garfos e facas maiores também estão no mesmo lugar, caprichosamente imitadinhos.

Hoje, sou eu que levo e trago minha pequena nos cursos extra curriculares e me faço presente na sua vida escolar, tal como ela fazia... hoje, sou eu que vibro a cada conquista, que guardo os dentes dela para fazer brincos um dia, que me emociono ao ver as fotos e vídeos dela quando bebê, lembrando do quanto o tempo que passou foi bom e lindo. Hoje, sou eu que preparo os lanches dela, sempre do jeitinho caseiro e com carinho de mãe evidente. Sou eu que fico na plateia chorando feito louca ao ver a homenagem do dia das mães.

Ao viver meu papel de mãe, também revivo meu papel de filha...

É fácil imitar minha mãe... . Porque, se ela fez, é bom... é a certeza de que tudo vai dar certo.

É muito bom te ver sessentona, mãe. Representa um tempo de paz, de missão cumprida, de relógio e ritmo mais lentos, de emoções mais intensas e de percepções diferentes. É chegada a hora de olhar para o mundo sob novos ângulos, de projetar um futuro como nunca fora feito. Uma etapa para ser saboreada e ostentada com a sabedoria de toda a  vida até então percorrida.

Teus sessenta anos chegaram, minha mãe. Assim como os meus trinta e cinco. São novas fases as quais nos adaptaremos, sempre na fé de que o melhor faremos uma pela outra, como sempre.


E vamos continuar brincando de idade. Agora, quero imaginar eu com sessenta e tu com oitenta e quatro!!! Quando eu também for sessentona, teremos as duas vaga garantida do shopping, bem pertinho da porta, para passear de mãos dadas, comer bolo de chocolate e tomar sorvete, curtindo novas fases e assistindo a correria da nossa Helena com trinta e dois anos, lembrando do quanto também era bom e doce o tempo que ela tinha seis!

Te amo, muito! Feliz aniversário!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fériassssssssssssssssssssssssss



Enfim, chegaram minhas férias. Momento de trocar o sapato alto por algo mais confortável (mas não menos elegante, por óbvio). 

Momento de pausa, de rotina revirada, lazer alternativo, horários malucos ou a falta dele.

Momento de quebrar o relógio, de saborear a vida devagar, mais lentamente, de pensar e repensar. Traçar focos e preparar-se para um longo ano repleto de desafios.

É a primeira vez que experimento férias no mês de janeiro. Aliás, há pouco tempo que experimento férias de verdade. Sempre tive dificuldade de me desligar da rotina de trabalho, que sempre fez parte de mim, mas já estou em níveis elevados de aprendizagem intensiva neste aspecto.

Janeiro sempre foi um mês enjoado para mim. Moro numa cidade litorânea, repleta de praias. Assim, naturalmente, entope-se de forasteiros turistas que buscam à beira mar seu lazer anual. E então o trânsito fica caótico, o calor é sempre mais insuportável, os preços mas caros, as alternativas de escape menores...

Então, sempre preferi trabalhar no mês de janeiro, curtindo um bom ambiente fechado com ar condicionado a todo vapor. Saindo tarde para fugir dos engarrafamentos e assim esperar até o que o ano engrene de verdade, quando, aí sim, lá para março, apresentava-se a época ideal de verdadeiras férias. Quando o pique coletivo volta a todo vapor, eu pendurava as minhas chuteiras, oops, meus bicos finos, para viver um tempo de pausa. Assim, meu ano só efetivamente começava em meados de abril. Bom demais.

Mas este ano é diferente. Já era hora de curtir, junto com minha filha, as férias escolares dela. Afinal, não há mais espaço para que ela falte à escola, quando no berçário e no maternal as coisas eram facilitadas neste aspecto, permitindo maior mobilidade na escolha de datas de viagens, férias e afins. E ainda tem artesanato, passeio, curtição com a mamãe, com o maridão, amigas. Preciso arranjar tempo para tudo isso, mas sem correrias. Assim, leve, como há de ser a vida.

Então, declaro aberto o tempo para a vadiagem oficial...Que venham os convites. Tô facinha, facinha!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Minhas estacas


Eram fortes as minhas estacas. Há três ou quatro anos atrás, pelo menos, achava que elas eram, a princípio. Mas por essas surpresas da vida, uma grande delas ruiu. Rachou feio. Trincou e deixou cair as demais, no conjunto de minhas maiores convicções e certezas.

Fiquei perdida por um tempo. Zonza como quem recém desmorona e ainda não sabe ao certo onde está, vez que tudo parece tão estranho e diferente. Zonza como quem leva um susto muito grande, quando o chão parece ruir e te engolir. 

Todos temos nossas estacas. Nos firmamos nelas, como prédios e grandes construções também o fazem. E dificilmente nos mantemos em pé quando algo inesperado acontece, situação em que as estacas não suportam o peso elevado do medo, da angústia, do sofrimento e da injustiça.

Refiz minhas estacas. Já se passou mais de um ano do grande desmoronamento. Levantei.


 Mas não refiz só aquela que ruiu. Multipliquei-as.

Percebi que meu maior erro foi confiar em poucas delas. Em concentrar minha vida em alguns eixos que não são tão importantes assim. Não na proporção que outrora dava.

Por mais grossas, enterradas e fortes que sejam, se forem apenas algumas estacas, o rompimento de uma delas desmorona as demais também. Solução da engenharia: mais estacas.

Simples assim.

Com vinte ou trinta estacas, ainda que mais finas e superficiais sejam, não comprometem o eixo central, que permanece hígido, forte no conjunto e pronto a receber mais e mais trancos.

Inspirei-me nos cálculos matemáticos e os imitei. Somei minhas forças. Não juntei cacos. Não permito que as migalhas contem minha história. Deixei que os restos fossem embora, junto com o sofrimento que me causaram. Restou só o que efetivamente sobreviveu, pois sim, foi o que se mostrou forte e austero, pelo que vale lutar e reerguer.

Hoje, minhas estacas são muitas. Muitas mais que antes. Mais profundas e, em conjunto, mais fortes. Ainda que uma ou outra seja destruída, dificilmente uma queda acontecerá.

Esse era o meu objetivo. Não permitirei mais que cheguem perto de minhas estacas. E ainda que isso aconteça, está protegida minha paz central. Ela jamais será atingida novamente.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Como posso fazer isso de uma maneira melhor?


A frase que entitula este post eu acabei de ouvir em uma reportagem sobre a história da internet e da ascensão meteórica da Google.

Ela veio daquele que permitiu ao gigante das buscas sobreviver num meio onde os grandes portais eram recheados de publicidade, a ponto de poluir a página inicial. Ele conseguiu descobrir um meio que viabilizasse a Google financeiramente, num momento em que os seus investidores iniciais já estavam cansados de apenas injetar milhões de dólares, sem  receber o retorno a contento.

A profissão deste anônimo se resume a encontrar soluções a empresas que estão à beira de um dilema insolucionável, e assim, ele junta seus milhões ao permitir que os aspirantes do vale do silício também enriqueçam. Questionado de onde vinha seu sucesso, respondeu com uma simples frase: 'apenas busco sempre fazer melhor o que todo mundo faz de maneira simplória'.

E assim ele criou o mecanismo que permite ao Google vender publicidade sem poluir sua página inicial, deixando no canto direito as ofertas estrategicamente selecionadas em função da palavra digitada pelo usuário. Criado o conceito de 'palavras-chave', ficou fácil ganhar dinheiro com a Google... afinal, quanto a Volks, a Ford ou a Fiat pagariam para manter um anúncio discreto na página toda vez que alguém digitasse a palavra 'carro' no famoso site de busca? Palavras-chave permitem publicidade direcionada àqueles que se interessam diretamente pelo assunto principal do que se pretende vender.

Buscar sempre fazer melhor parece um conceito simples, até mesmo clichê, repetido pelos magos da auto ajuda e pelos plantonistas conselheiros que, vez ou outra, encontramos para aquelas conversas do tipo papo cabeça.

Mas não é assim, simples. É algo maior. Grandioso até. Capaz de proporcionar a verdadeira felicidade interior, a qual todos incessantemente procuramos. Encontrar maneiras melhores de fazer o que já foi feito é o momento em que colocamos em prática a inteligência, a fé, a sabedoria, a sorte, o dinamismo, a coragem, o entusiasmo e, por que não dizer, até o sentido pelo qual vivemos. Quando se perde este prazer, desaparece também o gosto por estar vivo, por pulsar e interagir com o mundo, com as pessoas e todas as coisas vivas que nos cercam.

Fazer sempre melhor, é o encontro com o que é belo, com o que é verdadeiramente importante. Em casa, no trabalho, na vida social ou até dormindo, sempre se pode fazer melhor. E mais ainda, e ainda mais um pouco... Aquele bolo que fiz ontem, pode merecer um novo ingrediente para ficar melhor. O recado que passei de cara feia, pode merecer um sorriso tímido da próxima vez. A leitura do livro, em que pulei páginas pouco interessantes, pode merecer uma entrega maior. 

O que move a fazer sempre melhor é a intenção da perfeição, o desejo de conquistar a excelência e isto, via de consequência, também impulsiona seu agente a sua melhoria interna.

Portanto, ainda que o novo ingrediente do bolo seja um verdadeiro desastre gastronômico, ainda que meu sorriso seja mal interpretado ou que eu feche o livro mais cedo do que imaginava, restará sempre a intenção de ter feito melhor e a certeza de que este movimento se completa de forma plena.

E, numa dessas, ainda pode pintar uma ideia brilhante, capaz de mudar o mundo...

Foi assim com a Google...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Como a vida


Minhas festas de fim de ano tiveram de tudo um pouco:

Muitas surpresas;

Alguns azares;

Situações inesperadas;

Casa cheia e casa vazia;

Riso e choro;

Movimento e lentidão;

Animação e cansaço;

Respostas e algumas perguntas;

Renovação e chuva de mudanças;

Acasos bem vindos e programações frustradas;

Decepções e superações;

Telefonemas e mensagens emocionantes;

Sujeira e limpeza.

São fluxos de energia que sinalizam um bom começo. Contrários que se complementam.

Meu fim de ano teve de tudo um pouco.

Como a vida...

Vem 2012!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Balanços e retrospectivas


Esta semana que fica espremida entre o Natal e o Ano Novo é muito interessante, apesar de sua atmosfera de tédio. É nela que nos recuperamos dos excessos, dos encontros e desencontros do Natal, e ainda nos preparamos para uma nova festa. Aos olhos de alguns, o Reveillon é muito melhor do que o Natal, para outros, ocorre exatamente o contrário.

Não priorizo nem um, nem outro. Para mim, são momentos e festividades com objetivos totalmente distintos, ambos com valor e muito necessários. Balanços e retrospectivas, tanto individuais como coletivos, têm seu lugar, um cantinho especial.

É bom olhar para trás, mesmo que seja para olhar pela última vez algo que se quer esquecer. E se for para recordar de algo bom, por que não?

Depois do aconchego do Natal, surge o momento para encarar desafios, para mapear novos destinos, renovar esperanças. Virar páginas e escrever novas, aparar arestas e limpar as sujeiras das gavetas e do coração. Retirar entulhos, sob todos os aspectos, e buscar métodos para consolidar o que foi tanto prometido e esquecido.

A magia da virada do ano sempre irá perseguir a humanidade. Incrível como um novo calendário tem um poder de renovação implícito. Se pensarmos friamente, é só mais um dia que inicia, como todos os outros 364 que chegaram à meia-noite...

Mas o que seria de nós, se não fosse o 31 de dezembro? Quantos já não se encheram de esperança nesta data? Quantos não acharam que o péssimo velho ano findo seria o passaporte para uma nova história, mais doce, branda e prazerosa, como se todos os problemas ficassem grudados ao calendário anterior?

É bom fantasiar que isso ocorre. Já fiz isso e foi bom. Se precisar, faço de novo...

Costumo dizer que um ano bom é também aquele que foi péssimo. Nas dificuldades, aprendemos mais, amadurecemos mais, crescemos rapidamente. Então, quando chega ao final, vimos o quanto evoluímos, e a sensação é de paz. E se o ano não teve tanta turbulência, embora o progresso seja menor, tem seu valor a tranquilidade que emana de um ano vivido sem sustos.

Seja qual for o seu caso, seja qual for o resultado de seus balanços, a retrospectiva é válida para criar o solo fértil para o novo plantio.

Que venha 2012! Minhas sementes já estão prontas!


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Peru de Natal - uma crônica de Mário de Andrade



O Peru de Natal - Mário de Andrade


O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai, acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai ser desprovida de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira a mamãe a ideia d'ela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. “Onde se viu ir ao cinema de luto pesado!”. 

A dor já estava sendo cultivada pelas aparências e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora, aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos. Desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos - descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia - e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. É tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar em nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa do quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

- Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

- Mas quem falou de convidar ninguém! - essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

- Meu filho, não fale assim...

- Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Deu-me de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadia a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar e trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem-feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru, resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós cinco, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de Xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

- É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada deu-se o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento, aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

- Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo: amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe, mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos se estava realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

- Eu que sirvo!

"É louco, mesmo!" - pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa?! - Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável de "casca", cheio de gordura, e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

- Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar - a pobre! - que aquele era prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a quem eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

- Mamãe, este é o da senhora. Não!, não passe não!

Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrimas sem abrir a torneirinha também, se esparramou num choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! - coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornava impossível. É que o pranto evocara por associação imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue, boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade... E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

- Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita, e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

- É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá do céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver-nos todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre sacrificara tanto por nós. “Fora um santo que vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai, um santo”. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever "felicidade gustativa", mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça!, mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou se mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
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